Monitoramento da Biologia Reprodutiva da Arara Azul de Lear

Monitoramento da Biologia Reprodutiva da Arara Azul de Lear

Monitoramento da Biologia Reprodutiva da Arara Azul de Lear

Coordenação : Erica Pacífico
Equipe: Erica Pacífico, Thiago Filadelfo e outros

O estudo da Dinâmica populacional da arara-azul-de-lear é uma investigação dos efeitos que atuam sobre a população desta espécie ameaçada de extinção e endêmica da caatinga. Nossa hipótese é de que toda a população das araras-azuis-de-lear, 1263 aves (estimadas em 2012), onde apenas 20% são reprodutores, está concentrada em duas localidades protegidas na Eco-região do Raso da Catarina e pode ser o resultado de um crescimento demográfico recente desde cerca de 200 aves estimadas antes dos anos 2000.
Neste contexto, o Instituto Arara Azul em parceria com a Toyolex, a Fundação Biodiversitas e a O.N.G. World Parrots Trust (Inglaterra), pesquisadores do CEMAVE-ICMBio, da Universidade de São Paulo e do Departamento de Biologia da Conservação da Estação Biológica de Doñana (Espanha) estamos realizando estudos para investigar os efeitos positivos e negativos deste crescimento, bem como buscar alternativas para a conservação da espécie e seu habitat.

MONITORAMENTO DA BIOLOGIA REPRODUTIVA DA ARARA-AZUL-DE-LEAR E ESTUDO DA DINÂMICA E EXPANSÃO POPULACIONAL NA CAATINGA: IMPLICAÇÕES PARA SUA CONSERVAÇÃO

O estudo da Dinâmica populacional da arara-azul-de-lear, espécie ameaçada de extinção e endêmica da caatinga, ocorre desde 2014 com o apoio da Fundação Biodiversitas (FB), do Instituto Arara Azul (ITA), e do Centro de Estudos de Migração de Aves (CEMAVE-ICMBio). É coordenado pela bióloga Erica Pacífico, doutoranda participante do Programa Ciências sem Fronteiras, CAPES, e também do Departamento de Biologia da Conservação da Estação Biológica de Doñana (EBD-CSIC), Espanha. O estudo é realizado em colaboração com o Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP), e com o Laboratório de Genética Molecular de Aves da Universidade de São Paulo (LGEMA). Os trabalhos de campo são financiados pela World Parrot Trust (WPT), da Inglaterra, e pela Toyolex Veículos Concessionária, de Recife, e os trabalhos realizados em Laboratório são financiados pela Loro Parque Fundación, da España.

O monitoramento de ninhos começou na reserva privada da Fundação Biodiversitas, a Estação Biológica de Canudos (EBC), localmente conhecida como Toca Velhaque apoia o estudo da Biologia Reprodutiva da espécie, desde 2008. Com este estudo, muitas perguntas surgiram sobre as estratégias de conservação da espécie em longo prazo. Com o monitoramento de ninhos, foram desenvolvidos métodos alternativos e inovadores de marcação de psitacídeos, os quais permitem fazer seguimento e também estimativas da sobrevivência dos filhotes de araras-azuis-de-lear – após voarem de seus ninhos e se dispersarem na Caatinga. Assim, foram descobertos novos dormitórios e áreas de reprodução das araras localizados em áreas remotas não protegidas. Estas áreas, em sua maioria, são zonas rurais que sofrem com a falta d’água. Portanto, houve o apoio dos moradores locais para que fosse possível acampar, em suas propriedades, e para conhecer locais históricos de ocorrência da arara-azul-de-lear. Foram feitas entrevistas com os moradores mais antigos destes povoados de modo a descobrir mais sobre os processos de declínio populacional desta espécie.

A cada estação reprodutiva as amostragens são repetidas nos ninhos da Toca Velha, na Estação Biológica de Canudos, e ampliado os esforços buscando entender os problemas ambientais das novas áreas de dispersão das araras. As expedições são possíveis graças ao apoio contínuo da Toyolex Veículos – que disponibiliza um veículo 4×4, permitindo assim que os pesquisadores percorram, com segurança, estradas de terra, pedra e areia -, ao financiamento contínuo da O.N.G. World Parrots Trust, que financia essas expedições, e ao apoio logístico promovido pela Fundação Biodiversitas. A cada ano, o objetivo é o de reunir mais informações que serão convertidas em ações de conservação para a arara-azul-de-lear.

Sete expedições já foram realizadas, descobrindo novas informações sobre a capacidade de dispersão das araras e suas condições de sobrevivência na região Centro-Norte da Bahia, onde também foram estudados seus hábitos alimentares e comportamento reprodutivo. Para atingir os objetivos, entre Março e Maio de 2016, foi realizada uma expedição de 45 dias, com a participação de 6 voluntários e 5 pesquisadores colaboradores, além de 3 guias de campo locais. As seguintes atividades foram realizadas:

Estimativa do sucesso reprodutivo nos ninhos da Estação Biológica de Canudos, da Fundação Biodiversitas:

Observamos 35 ninhos em quatro sítios de reprodução: Toca Velha (Estação Biológica de Canudos), Toca da Onça (comunidade rural), Barreiras (propriedade privada) e Baixa do Chico (Terra Indígena Brejo do Burgo). Em 31 desses ninhos observados, foram capturados 47 filhotes para estudos de desenvolvimento e estimativa de sobrevivência. Dos filhotes capturados, foi possível realizar marcação de 27 deles com anilhas do CEMAVE, anilhas coloridas, e Colares com Medalhas. Foi ainda realizado um estudo de comportamento dos pais dessas araras, de modo a diagnosticar sua aceitação quanto aos novos métodos de marcação utilizados. Para tal, câmeras trap foram dispostas nos ninhos estudados, de forma que obtivemos resultados positivos.

Três dos ninhos estudados possuíam pais já anilhados com anilhas metálicas do CEMAVE, estas utilizadas desde o início do projeto, em 2008. No entanto, os respectivos números das anilhas são de difícil leitura, não permitindo a identificação destes indivíduos. Apesar disso, vale ressaltar que é de conhecimento que esses já atingiram a maturidade sexual – que, portanto, deve variar entre 4 e 6 anos.

Com os novos métodos de marcação (anilhas amarelas e medalhas), que possuem números visíveis com o uso de binóculos ou lunetas, será possível ampliar os registros de sobrevivência de juvenis e sua capacidade de dispersão.

Estudo sanitário dos filhotes de arara-azul-de-lear:

Este estudo ocorre desde 2010 por meio do trabalho do médico veterinário André Saindenberg, vinculado à USP, e atualmente também está sendo realizado pelo médico veterinário Marcus Vinícios Romero Marques, vinculado à UFMG. Em colaboração, coletam material biológico dos filhotes de araras para estudar possíveis doenças que possam afetar a população.

Captura de filhotes em novas áreas de ocorrência:

Em 2015 foram feitas as primeiras capturas de ninhegos na região das Barreiras. Nessa região foram contados10 ninhos ativos, e também dois locais utilizados pelas araras como dormitórios, onde a estimativa é que durmam 22 araras na estação reprodutiva. Porém, devido ao alto índice de colmeias de abelhas africanas nessa localidade, apenas um desses ninhos é acessível.

Em 2016, foram realizadas as primeiras capturas nos ninhos históricos da Baixa do Chico, local de onde as araras haviam desaparecido desde os anos 1970 e, agora, estão voltando a se reproduzir. É possível que existam mais quatro ninhos na presente localidade. Nela, há também um grande dormitório com cerca de 60 araras, que aí dormem todos os anos, desde 2014.

Foi possível, também, identificar que houve uma perturbação ao dormitório das araras devido às gravações da Novela “Velho Chico”, realizada pela Rede Globo, fazendo com que as araras mudassem seu local do dormitório. A pedido da comunidade indígena local foi confeccionada uma placa (pintada pela Bióloga Voluntária Fernanda Lacerda) para colocar na estrada que dá acesso ao dormitório. A presente placa visa informar sobre o dormitório das araras e, também, solicitar que se evite passar por este caminho no período de descanso das araras.

Diagnóstico do impacto das abelhas invasoras (africanas e europeias) nos ninhos das araras:

Já conhecendo a problemática do impacto das abelhas africanas que vem sendo observado na Estação Biológica de Canudos desde 2008, foi desenvolvida uma colaboração com a Pesquisadora norte-americana Caroline Efstathion, e o Pesquisador Robert French Horsburgh. Os dois pesquisadores visitaram o projeto para auxiliar na quantificação do impacto das abelhas invasoras africanas nos ninhos das araras-azuis-de-lear. Foi realizado um censo de colmeias nos sítios de reprodução, um pequeno experimento para testar a eficácia da remoção de colmeias de abelhas, bem como o uso de armadilhas para capturar enxames de abelhas na região das Barreiras e na Baixa do Chico. Estas áreas foram diagnosticadas como críticas com relação à perda de hábitat para reprodução da arara-azul-de-lear, a perda de diversidade de abelhas nativas e a captura de araras e papagaios para comércio local e internacional.

Ainda, foram realizadas, entrevistas com moradores locais para que fosse entendido os sistemas locais de extração de mel e para identificar as pessoas interessadas em trabalhar com meliponoculturas (em colaboração com uma O.N.G., IRPAA – Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (www.irpaa.org), coordenada por um morador do município de Canudos, Vanderley Leite Silva).

Coleta de material para estudos de ecologia alimentar e genética populacional:

A pesquisa financiada pelo Fundação Loro Parque “Estudo da Ecologia de Forrageio da arara-azul-de-lear” é realizada por meio de observações do comportamento alimentar das araras. Foram descobertas 24 novos itens alimentares para a espécie, coletados mais de 800 penas em dormitórios (amostragem não invasiva), bem como também os respectivos itens alimentares para estudos de dieta por método de Isótopos Estáveis – em que são feitas comparações dos índices de Carbono e Nitrogênio em cada pena e fruto coletado. Além disso, para a identificação genética dos indivíduos de araras-azuis, foi realizada a genotipagem de cada pena (utilizando técnicas moleculares). Nesta viagem, foram coletadas cerca de 300 penas (retrizes e rêmiges) nos dormitórios, incluindo um novo dormitório localizado em Euclides da Cunha. Foram coletadas, ainda, 200 amostras de fezes para estudos de dispersão de sementes por araras.

Estudo da capacidade de suporte da região do Boqueirão da Onça para criação da área de soltura:

Houve a visita na região do Boqueirão da Onça, localizada entre os municípios de Campo Formoso e Sento Sé, que se caracteriza por ser um fragmento de caatinga com 900 mil hectares, de onde as araras desapareceram nos anos 2000. A última expedição, realizada pela Fundação Biodiversitas, identificou cerca 30 araras na região. Entretanto, hoje restam apenas 2 indivíduos na região, que não se reproduzem e estão à beira da extinção.

Em pareceria com a ENEL GREEN POWER e com o CEMAVE foi visitada a localidade para identificar as zonas críticas de refúgio, abrigo e zonas críticas de alimentação da arara-azul-de-lear e, assim, implementar o programa de revigoramento populacional, que se mostra como prioridade fundamental para conservação da espécie segundo o PAN (Plano de Ação para Conservação da arara-azul-de-lear do ICMBIO). O programa será conduzido no Boqueirão da Onça, localizado entre os municípios de Sento Sé, Umburanas e Campo Formoso da Bahia, área de influência do empreendimento do Complexo Eólico Delfina, onde está prevista a implantação de uma área de soltura para reintrodução das araras-azuis-de-lear nascidas em cativeiro (em instituições participantes do programa de reprodução em cativeiro do PAN).

Nesta viagem, foi localizado um novo dormitório histórico por meio de entrevistas com os moradores idosos e identificado agricultores interessados em participar do projeto. Também, foi realizada a coleta de material botânico para estudo da disponibilidade de alimento para as araras. Foi feita a observação do comportamento da arara-azul-de-lear, e identificado uma séria falha no empenamento de um dos indivíduos – o que remete, até o momento, a um stress de display reprodutivo não correspondido.

Roadside Survey (estudo da qualidade do hábitat):

Foram percorridos cerca de 1.500km com visitas aos municípios de Campo Formoso, Umburanas, Sento Sé, Morro do Chapéu, Andorinhas, Uá-Uá e Euclides da Cunha, de modo que foram entrevistadas 36 pessoas idosas (maiores de 70 anos) nestas localidades a fim de coletar informações específicas acerca das áreas históricas de ocorrência das araras.

Foram encontradas duas novas localidades históricas (Pov. de Queixo Dantas – Campo Formoso, e Pov. de Gruta dos Brejões – Umburanas) e um novo dormitório em Euclides da Cunha, no Povoado de Barra do Tanque, onde foi feito um censo de 147 araras dormindo em árvores de Baraúna e Aroeira. O dormitório das araras está protegido dentro de uma fazenda e o vaqueiro responsável foi informado sobre as atividades de conservação realizadas para a proteção das araras. As araras estão dormindo nesta propriedade desde dezembro de 2015, indicando que elas estão ocupando esta área no período reprodutivo.

Foi feita a busca ativa de possíveis ninhos e de araras marcadas, usando lunetas em pontos fixos, mas não foi obtida nenhuma informação adicional.

Gravação de um documentário:

A bióloga Angela Prochilo e o Biólogo Cesar Leite acompanharam nosso trabalho de campo, em 2016, para documentar as dificuldades e os esforços realizados na coleta de dados gerados para amparar ações de conservação da arara-azul-de-lear (https://www.indiegogo.com/projects/to-catch-a-macaw#/). Este documentário é projeto de mestrado de Angela pela BBC wildlife maker (Inglaterra), em Parceria com o fotógrafo João Marcus Rosa (Nitro Imagens, Belo Horizonte), co-financiado pela O.N.G. World Parrots Trust.

Entrevista para o Projeto Jardins da Arara de Lear (O.N.G.):

Entrevista realizada na zona rural das Barreiras, no município de Canudos, informando sobre a importância de se conservar as áreas de alimentação da arara-azul-de-lear (https://www.youtube.com/watch?v=1lCt3e8bYig). O projeto é coordenado por Pierre Alonso e Aliomar Almeida.

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